Carta número 5 - Os adesivos queridinhos de todos!
enviada 26/03/2026


Um tempinho sem escrever, mas vamos retomar!
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Se você faz restaurações adesivas - sejam anteriores ou posteriores, diretas ou indiretas - lida constantemente com os sistemas adesivos.
Existem vários no mercado: desde aqueles que vêm como brinde junto com a compra da dental até aqueles que custam uma pequena fortuna. Como lidar com tantas opções? Já se perguntou se o adesivo que você usa é realmente bom?
Se você acompanha o que muitos professores dizem nas redes sociais, já deve ter se deparado com a recomendação de um material que parece ser a Ferrari dos adesivos: o ClearFil SE Bond, da empresa japonesa Kuraray. O preço pode assustar, passando da casa dos R$700,00 em algumas dentais (pesquisado em março de 2026).
Outro queridinho - vamos considerar que é a Lamborghini dos adesivos - é o Optibond FL, da empresa americana Kerr. Custa em torno de R$400,00.
Alguns professores são tão enfáticos sobre a superioridade desses materiais que a sensação é que estamos fazendo algo de errado se estivermos usando outro. São inclusive rotulados como “padrão ouro” já há muitos anos.
O que tem de tão especial nesses materiais? São realmente superiores aos demais? Se você usar algum outro adesivo, é um pecador e o seu lugar no paraíso está comprometido? Se eu não posso comprar um desses adesivos, o que faço então?
Antes de tentar responder esses questionamentos, quero te dizer que sou usuário do Optibond FL. Fui acostumado a vida toda ao adesivo convencional de 3 passos (ácido, primer e bond). Há quem diga que usar ácido fosfórico na dentina causa sensibilidade pós-operatória, mas isso é uma falácia (assunto para outra hora).
Durante anos usei o Scotchbond Muiltipurpose, da Solventum (antiga 3M). Após o relançamento do Optibond FL no Brasil, ele se tornou minha primeira escolha. Tenho minhas razões, mas nenhuma delas inclui a pregação de professores que fazem apologia ao padrão ouro.
Para te explicar por que esses materiais são tão recomendados por influenciadores, tenho que te dizer duas coisas rápidas: 1) como surgiu essa superioridade? 2) o que é a Odontologia Biomimética?
- Como surgiu a ideia de um adesivo padrão ouro:
Muitas pesquisas, tanto laboratoriais como clínicas, já foram realizadas para atestar a eficácia de adesivos. Um grupo importante da Universidade de Leuven (Bélgica), liderado pelo renomado professor Bart Van Meerbeek, publicou na década de 2010 uma série de artigos comparando sistemas adesivos. Eles encontraram uma superioridade do Optibond FL, seguido pelo ClearFil SE Bond quando se avaliou laboratorialmente a resistência adesiva.
O ponto é que valores laboratoriais não podem ser extrapolados diretamente para a clínica. O que mais importa é se a restauração falha no paciente. Vale notar , para ser justo, que esses adesivos depois foram testados clinicamente e se mostraram muito eficazes.
A questão é que outros adesivos foram aparecendo posteriormente. Na época dessas pesquisas, os Universais estavam apenas começando e estudos de avaliação dos novos materiais só viriam alguns anos depois. Além disso, de lá para cá, muitos adesivos foram repaginados, melhorando consideravelmente a sua composição química e, consequentemente, o seu desempenho.
Alguns trabalhos de pesquisa importantes já contestaram a superioridade dos adesivos OptiBond FL e Clearfil SE Bond em lesões cervicais não cariosas. Veja bem: eu disse que contestaram a sua superioridade, não a sua eficácia.
Um estudo de 2021, por exemplo, demonstrou que não há diferença estatística significativa nas taxas de retenção a longo prazo entre os adesivos padrões-ouro e alguns sistemas contemporâneos.
O título do artigo já é sugestivo:
“Desafiando o conceito de que o Optibond FL e o ClearFil SE Bond em lesões cervicais não cariosas são adesivos padrões-ouro: uma Revisão Sistemática e Meta-análise”.
Nunca devemos tentar entender um artigo lendo o título e a conclusão somente. Mas este não é o momento para destrincharmos essa publicação. Eu quero apenas te mostrar a conclusão dos autores para que você capte a ideia:
“Não temos evidências, a partir dos ensaios clínicos randomizados disponíveis que compararam o OptiBond FL ou o Clearfil SE Bond usados em lesões cervicais não cariosas, para sustentar o conceito amplamente difundido de que esses adesivos são melhores do que outras marcas concorrentes disponíveis no mercado odontológico.”
Ou seja, à luz da ciência, esses adesivos são fantásticos, excelentes, mas vender a ideia de que só eles prestam, é um erro.
- Sobre a Odontologia Biomimética:
A biomimética não é um termo da odontologia. O conceito surgiu na década de 1950 e refere-se ao estudo de estruturas e funções biológicas como modelos para soluções tecnológicas humanas. Parece complexo, mas é simples: trata-se de imitar a natureza. Um exemplo famoso é o do trem-bala japonês, cujo bico foi projetado com base no bico do pássaro martim-pescador, para ser mais rápido e silencioso.
A partir dos anos 90, o conceito foi utilizado na odontologia. A ideia era basicamente a seguinte: em vez de apenas substituir tecidos perdidos por materiais mecanicamente resistentes, a odontologia restauradora biomimética passou a focar na preservação da integridade biomecânica do dente natural, utilizando técnicas de adesão avançadas para simular a função, a estética e, principalmente, o comportamento elástico da dentina e do esmalte.
E os divulgadores mais proeminentes da odontologia biomimética, dentre eles o suíço Pascal Magne e o americano David Alleman defendem que os protocolos adesivos a serem executados devem incluir a utilização quase que obrigatória dos adesivos Optibond FL ou ClearFil SE Bond.
Para esses autores, e muitos outros professores “biomiméticos” espalhados pelo mundo, o uso de adesivos que não sejam os padrões-ouro compromete a longevidade e a força de união necessárias para sustentar os princípios biomiméticos.
Já vi discussões acaloradas na internet, com pessoas defendendo ferozmente o seu ponto de vista. Alguns são professores que têm uma legião de alunos que mais se parecem com seguidores fanáticos de uma seita. Não posso generalizar, mas já tive notícias de discussões fortes, assemelhando-se às tão comuns brigas políticas ou de torcida, cada um defendendo o seu “líder” ou a “sua técnica” - biomiméticos x não-biomiméticos.
Eu sou averso a tudo isso. Eu gosto de discutir ideias, não pessoas.
Se você usa algum material somente porque o professor fulano disse, eu acredito que existe algo de errado. Recomendações são bem-vindas, principalmente de alguém mais experiente que nós, mas eu defendo o pensamento livre. Pense por você mesmo. Para isso é preciso estudar. O conhecimento liberta. Ele te dá bagagem, te confere um repertório, para você tomar as suas próprias decisões e entender mais de um ponto de vista.
Esta newsletter, muito antes de te recomendar um produto, é sobre te ajudar a criar o seu próprio repertório, te auxiliar na sua jornada do conhecimento e, assim, nos tornamos um pouquinho melhores a cada dia.
Pode parecer um clichê, mas o melhor adesivo é aquele que você sabe usar melhor. Aquele que você já tem na gaveta e sabe como é a sua aplicação correta.
Preciso ser sincero aqui: existem marcas de adesivos que são ruins. Uma dica - fique nas empresas que já têm uma história no desenvolvimento de materiais adesivos: as próprias Kuraray e a Kerr, mas também a FGM, a Solventum (3M) e a Bisco, só para ficar com alguns exemplos.
Resumindo: o melhor adesivo é aquele que você usa com capricho, com um campo operatório limpo, livre de umidade ou contaminantes (o que se diga de passagem, não é aquele campo exclusivamente obtido com isolamento absoluto).
A técnica operatória é mais importante do que o material. Portanto, busquemos sempre a nossa própria evolução.
Um abraço. Até a próxima carta.